Técnicos de Flamengo e Inter são, nesta sexta-feira, essencialmente as mesmíssimas pessoas e profissionais que eram no dia em que foram anunciados pelos atuais clubes

Tivesse Edenilson aguardado um segundo a mais para projetar seu corpo à frente, hoje discutiria-se o rebatismo do Beira-Rio, a nova Arena Abel Braga. Rogério Ceni seria um fracassado, fadado a treinar times menos pesados, e o elenco do Flamengo exibiria sinais de desgaste, a necessidade da famosa e quase sempre tola “reciclagem”.

A fantasia de que o futebol é praticado por personagens que se situam no heroísmo ou na vilania acarreta na criação de um abismo mentiroso entre quem vence e quem perde. São jogadores, treinadores, seres humanos separados muitas vezes, como no caso da decisão do Brasileirão-2020, por um segundo. Por centímetros.

Numa temporada ainda mais aleatória do que costumam ser as nacionais, o campeonato consagrou outro vencedor que ainda não pode se definir como projeto bem acabado: o Flamengo de Rogério Ceni, tal qual o Palmeiras de Abel Ferreira, na Libertadores, não tem nem quatro meses de existência. É o resultado de uma série de soluções emergenciais criadas para vencer daqui a três dias. Soluções que funcionaram, assim como as de Abel Braga no Internacional, daí o mérito dos treinadores.

Depois dos títulos de 2019, temperados com profundo encantamento, criou-se no universo rubro-negro a equivocada impressão de que o máximo a ser feito por outro comandante que não fosse Jorge Jesus seria não atrapalhar. Qualquer elemento alheio àquele momento único era intruso, como se fosse possível parar no tempo e ignorar as óbvias dificuldades que até o próprio Jesus encontraria para sustentar o altíssimo nível num campeonato historicamente marcado pelo equilíbrio.

Rogério Ceni e Abel Braga são, nesta sexta-feira, essencialmente as mesmíssimas pessoas e profissionais que eram no dia em que foram anunciados pelos atuais clubes. E seriam a mesmíssima coisa se Edenilson estivesse centímetros mais para trás e o tabu colorado, enfim, se encerrado. Não significa que não tenham evoluído, aprendido, tanto o jovem como o veterano treinador.

Ao longo dos quase três anos de Fortaleza, Ceni escolheu ser ofensivo na Série B e nos torneios estaduais e regionais. Na elite, precisou aprender a se defender, ainda que esse jamais tenha sido o propósito de sua formação na função. Conseguiu ter a equipe menos vazada antes de rumar para o Flamengo, onde herdou um elenco que não lhe dava outra opção além de atacar.

Da tentação de agradar com a ideia de emular Jesus à libertação em organizar um time mais à sua feição, Ceni conviveu com lesões e nítidos problemas físicos até encontrar uma formação de meio-campo que, daqui a décadas, será utilizada como referência na defesa da possibilidade de reunir apenas jogadores criativos: Diego, Gerson, Everton Ribeiro e Arrascaeta.