Desde o ano passado, o presidente Jair Bolsonaro e aliados têm criado situações de atrito com a China. Dimas Covas afirmou que efeito, ‘na ponta’, é dificuldade em resolver burocracia para importação de insumos da vacina.

O diretor do Instituto Butantan, Dimas Covas, afirmou à CPI da Covid nesta quinta-feira (27) que o embaixador da China no Brasil, Yang Wanming, relatou “inconformismo” no lado chinês com ataques contra o país feitos por autoridades brasileiras.

Dimas Covas disse ainda que declarações anti-China prejudicam a obtenção da matéria-prima para vacinas contra a Covid. A China é o maior exportador mundial dos insumos.

Atritos com a China vem sendo causados desde o ano passado por altas autoridades do governo, como o presidente Jair Bolsonaro e o ex-ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, e também por pessoas próximas ao presidente, como o filho Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), deputado federal.

“O embaixador da China deixou muito claro: que posições que são antagônicas, que desmerecem a China, causam inconformismo do lado chinês”, disse Dimas Covas.


“Isso se reflete nas dificuldades burocráticas [na obtenção de insumos para a vacina]. Eram resolvidas em 15 dias. Agora, mais de mês. Nós, que estamos na ponta, sentimos isso. Negar isso não é possível”, explicou o diretor do Butantan.

Ele exemplificou os efeitos dos atrasos nos envios da matéria-prima da vacina.

“Tínhamos o compromisso de entregar 12 milhões de doses em maio, e entregamos 5 milhões. A produção foi retomada com a chegada da nova matéria prima, e vamos entregar 6 milhões a partir de 12 de junho. Houve 7 milhões de doses que poderiam ter sido produzidas e entregues em maio de acordo com o cronograma inicial”, detalhou.

Dimas Covas afirmou que pode ter começado uma “distensão” na relação com a China com a atuação do novo ministro das Relações Exteriores, Carlos França, que tomou posse em abril.

Atritos com a China
A posição de altas autoridades brasileiras contra a China, o principal parceiro comercial do país, é vista por analistas como contraproducente para os interesses do Brasil. Também é apontada por oposicionistas do governo como o motivo para atraso do envio de insumos das vacinas

Ao longo da pandemia, Bolsonaro já insinuou algumas vezes que o vírus causador da Covid foi propositalmente criado pela China. De forma pejorativa, ele também se referiu à vacina CoronaVac, produzida pelo Butantan em parceria com o laboratório chinês SinoVac, como “vacina chinesa”.

Em uma rede social, Eduardo Bolsonaro escreveu no ano passado insinuações de que a China escondeu informações sobre o coronavírus.

“Quem assistiu [à série] Chernobyl vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas q salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”, disse o deputado.

A representação diplomática da China no Brasil respondeu da seguinte forma:

“As suas palavras são extremamente irresponsáveis e nos soam familiares. Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental que está infectando a amizade entre os nossos povos”, escreveu a embaixada chinesa.

“Lamentavelmente você é uma pessoa sem visão internacional, nem senso comum, sem conhecer a China, nem o mundo. Aconselhamos que não corra para ser o porta-voz dos EUA no Brasil, sob a pena de tropeçar feio”, acrescentou a representação diplomática.

Na época, Araújo entrou na história escrevendo que o governo brasileiro tem “a expectativa de uma retratação por sua repostagem ofensiva ao chefe de Estado”. O texto original da embaixada chinesa não citava Jair Bolsonaro.

“As críticas do deputado Eduardo Bolsonaro à China, feitas também em postagens ontem à noite, não refletem a posição do governo brasileiro. Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele ofendeu o chefe de Estado chinês”, afirmou Araújo.