Em livro, Mark Esper descreve ex-presidente como desinformado e obcecado por poder e relata insultos ao vice Mike Pence

Ex-assessores têm no ex-presidente Donald Trump uma fonte inesgotável de histórias estarrecedoras que vêm à tona em livros publicados depois que eles se tornam seus desafetos. Secretário de Defesa entre julho de 2019 e dezembro de 2020, quando foi demitido pelo Twitter, Mark Esper cumpre esta tradição num livro de memórias de 752 páginas, que acaba de ser publicado nos Estados Unidos.

Por ele sabemos, por exemplo, que Trump sugeriu atirar nas pernas dos manifestantes que tomaram o país em protestos contra a morte de George Floyd. Propôs também lançar mísseis no México para destruir os laboratórios de drogas e acabar com os cartéis.
“Ninguém saberia que fomos nós”, alegou o ex-presidente, que negaria a responsabilidade sobre o ataque ao país vizinho, segundo o relato de Esper em “A sacred Oath” (Um juramento sagrado, na tradução livre).

Frustrado com a reação de seus principais conselheiros às ideias, o presidente contra-atacava com gritos e insultos. O vice-presidente, Mike Pence, não escapou às ofensas por engrossar o coro dos que se recusavam a reprimir os manifestantes que reivindicavam justiça racial.

“O presidente ficou furioso. Ele achava que os protestos faziam o país parecer fraco, nos fazia parecer fracos e “nós” o representávamos”, conta Esper, um veterano da Guerra do Golfo, que descreveu Trump como um líder desinformado, prisioneiro da ira, e obcecado por poder e culto à própria imagem. O ex-chefe reagiu com menosprezo. “Mark Esper era fraco e totalmente ineficaz. Por isso, tive que comandar as forças armadas.”

Em seu relato, o então diretor do Pentágono presenciou Pence ser incluído no rol de perdedores listados por Trump. “Ele permaneceu impassível, sentado e em silêncio. Eu nunca o vi gritar com o vice-presidente antes, e isso realmente chamou a minha atenção.”

Pence demonstrou lealdade ao chefe até o dia 6 de janeiro de 2021, quando se negou a intervir para deter a certificação da vitória eleitoral do democrata Joe Biden. Incentivados pelo presidente, partidários de extrema direita invadiram a sede do Capitólio e saíram à caça de Pence, que precisou ser retirado às pressas do plenário.
Esper conta que durante a transmissão do ataque que matou o líder do Estado Islâmico Abu al-Baghdadi, em outubro de 2019, ouviu o conselheiro político Stephen Miller propor que a cabeça do terrorista fosse mergulhada em sangue de porco e exibida como um alerta a outros. O então secretário de Defesa alertou que este procedimento seria qualificado como crime de guerra.

O Pentágono proibiu a publicação de alguns trechos do livro do ex-secretário de Defesa, que processou o departamento que dirigiu. Esper relata que, diante do comportamento errático do chefe, viveu o dilema entre permanecer no governo ou deixar o cargo.

“Pensei que a coisa certa a fazer, meu dever, era ficar e servir o país”, explicou ao jornalista Michel Martin, da NPR. No apagar das luzes, foi demitido sumariamente por Trump e revidou, propagando as inconfidências de seu governo.