A prefeitura diz que a dispersão é necessária pra acabar com o tráfico e o consumo de drogas na região. Quem vive ali, não quer pagar o valor dessa conta. Os próprios comerciantes estão armados para impedir que os usuários de drogas entrem nos comércios.

A decisão de dispersar a Cracolândia aumentou a sensação de insegurança no Centro de São Paulo, a maior cidade do país. A semana foi marcada por cenas de violência e caos. A prefeitura diz que a medida é necessária pra acabar com o tráfico e o consumo de drogas na região. Quem vive ali, não quer pagar o valor dessa conta.

Nas imagens é possível ver que um rapaz dá chutes na porta de uma lanchonete. Segundos depois, ele já está acompanhado de um grupo, que invade o lugar.

“Cena de guerra. Foi difícil impedir o desastre que aconteceu com amigo nosso, que é o dono do estabelecimento”, relata Eduardo, que viu tudo da janela do apartamento dele.

“Levaram tudo que eu tinha aqui dentro, né.Televisão, suco, bebidas, cigarro, Tive que comprar novo – porta nova, máquina de café, negócio de sorvete. Eu tô pagando uma coisa, que eu não tenho nada a ver com isso”, conta Jailton Silva de Oliveira, dono da lanchonete.
O problema é antigo no Centro de São Paulo, a violência segue recorrente, e sempre fez parte do cotidiano. Mas, segundo moradores e comerciantes, a insegurança vem se agravando nos últimos meses. É que agora os dependentes químicos não ficam reunidos num ponto só – eles ficam andando em grupos pelo Centro.

Um mapeamento da Labcidade, um grupo de estudo da faculdade de arquitetura e urbanismo da USP e outros pesquisadores, identificou a concentração de dependentes químicos em 16 pontos no Centro da cidade nos últimos 15 dias.

Esse vai e vem dos usuários pelas ruas do Centro começou em março deste ano. Naquela época, os dependentes químicos haviam migrado da Praça Julio Prestes para a Praça Princesa Isabel.

Esta semana, um grupo de usuários foi parar na Santa Ifigênia – o mais tradicional ponto de comércio de eletro-eletrônicos do país. Comerciantes fecharam as portas e a situação saiu do controle. Teve protesto também e os próprios comerciantes estão armados para impedir que os usuários de drogas entrem nos comércios.

A estratégia de dispersar os dependentes químicos é da prefeitura e do governo do estado pra combater o tráfico de drogas.

“Não existe uma grande concentração de usuário de crack sem a presença do traficante”, relata o prefeito Ricardo Nunes. “Nós focamos nos melhores exemplos internacionais e também fizemos a prisão de traficantes”, ressalta Roberto Monteiro, delegado.

Se por um lado, o combate ao tráfico de drogas é um ponto importante para acabar com a Cracolândia, por outro, o cuidado com os dependentes químicos também. São pessoas vulneráveis, em situação de rua, que estão vagando pelo Centro sem destino. E é essa questão que vem levantando discussão. Especialistas dizem que dispersá-los dificulta o tratamento da dependência química.

“Na hora que essas pessoas são dispersadas, esse vínculo com o profissional que vinha ali fazendo um trabalho de sensibilização ele muitas vezes é perdido”, relata Thiago Marques Fidalgo, professor do departamento de psiquiatria da Unifesp.