Desabamento de prédio matou 24 pessoas em abril; sobreviventes tentam seguir a vida. Ao G1, delegado diz querer descobrir quem está associado e lucra com a milícia.

Três meses após o desabamento de dois prédios na comunidade da Muzema, na Zona Oeste, a Polícia Civil do Rio de Janeiro não descarta que milicianos continuem atuando na comunidade, mas de uma forma cada vez mais “camuflada”.

Em entrevista  o delegado Gabriel Ferrando, titular da Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), disse que a atuação da milícia na região é feita de forma discreta após a tragédia e que eles estão até terceirizando atividades.

“Eles foram colocados no centro do noticiário contra a vontade deles. A milícia já vem numa fase, atualmente, de evitar uma exposição e responsabilização e isso gerou com que eles [milicianos] se escondessem cada vez mais, tentando ocultar bens, vender propriedades, tudo para fugir de uma eventual responsabilização criminosa”, explicou.
A tragédia do dia 12 de abril deixou 24 pessoas mortas, e a investigação apontou três suspeitos de serem responsáveis pela construção e venda dos imóveis. Dois foram presos e um segue foragido.

Possíveis ‘sócios’
O delegado da especializada também falou na existência de “sócio oculto” das milícias. Ferrando destacou ainda que, na atual fase da investigação sobre o envolvimento de organizações criminosas de milicianos na Muzema, a polícia quer identificar as pessoas que proporcionam lucros a esses grupos.

“A ideia é olhar o problema sobre outro enfoque. É verificar quem são essas pessoas que estão associadas à milícia, quem é um sócio oculto, quem viabiliza o financiamento pra organização criminosa.”
O delegado acrescentou que são pessoas que “sequer pensavam que poderiam ser responsabilizadas.”

Presos e foragido
Dois homens apontados pela polícia como construtores e vendedores dos imóveis estão presos. No dia 18 de maio, Rafael Gomes da Costa, de 26 anos, foi o primeiro a ser detido pelo envolvimento na construção e venda dos imóveis que desabaram.

Outro suspeito, Renato Siqueira Ribeiro foi localizado em uma casa em Nova Friburgo, na Região Serrana do estado, no início de julho. Segundo a polícia, ele mudou de residência “por diversas vezes”, já com investigadores em fazendo buscas.

José Bezerra de Lima, o Zé do Rolo, apontado pela investigação de envolvimento nas obras e na venda dos imóveis da comunidade, está foragido.

A delegada Adriana Belém, titular da 16ª DP (Barra da Tijuca), disse que a polícia espera concluir o laudo técnico em breve. Ela disse que continua ouvindo testemunhas na busca de identificar outros construtores.

“A gente espera concluir esse inquérito em breve. Já avançamos bastante. A gente continua buscando os laudos, todos os dias estamos ouvindo vítimas que perderam parentes e que perderam as casas”, disse
Os três envolvidos foram indiciados por homicídio com dolo eventual, quando se assume o risco de matar.

 

Sobrevivente tenta recomeçar a vida
Um mês após a tragédia, o G1 conversou com uma das sobreviventes do desabamento. Na época, Paloma Paes Leme ainda estava internada no Hospital Municipal Miguel Couto, na Zona Sul do Rio, ao lado do filho de 4 anos que foi resgatado junto com ela debaixo dos escombros.

Paloma perdeu o marido, Raimundo Nonato do Nascimento, de 41 anos, e os outros três filhos: Isac Paes Leme, de 9 anos, Pedro Lucas, de 7, e Lauana Vitória Barroso, de 15.

Hoje, Paloma já teve alta médica, mas aguarda um procedimento de cirurgia plástica na perna e anda com a ajuda de muletas. Ainda sem poder trabalhar, ela voltou a morar em Xerém, na Baixada Fluminense. Em entrevista ao G1 ela contou que está vivendo com a ajuda de pessoas que se solidarizaram com a situação dela e criticou o valor do aluguel social oferecido pela Prefeitura do Rio.